Sons desta Noite: “Uirapurú de Heitor Villa-Lobos [poema sinfónico]

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“Esta brilhante e colorida obra orquestral do grande compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) é sem dúvida a mais conhecida, à parte das Bachianas Brasileiras e dos Chôros. É característica do compositor criar uma mistura entre o folclore brasileiro e harmonias modernas, com uma aproximação luxuosa de textura e orquestração. (…)

Villa-Lobos dispensou algum tempo em viagens ao interior da sua nação sul-americana. Assim, construiu um projecto de um bailado que o próprio dizia basear-se numa lenda índia brasileira sobre um tipo de pássaro chamado de “Uirapurú”, considerado o espírito do amor. O bailado narra a captura deste pássaro lendário por uma caçadora e na transformação do pássaro num jovem charmoso, que se torna seu amante. No entanto, no fim é chacinado e transformado de volta a um pássaro lendário que vive encantando jovens amantes com o seu canto mágico.

Não será exagerado comparar esta partitura de Villa-Lobos como um equivalente do “Pássaro de Fogo” de Stravinsky. Ambas as partituras revelam os passo fundamentais dados pelos dois compositores em direcção ao seu estilo musical predominante e que fica na História, embora ambos retenham ainda aspectos da música pós-romântica, particularmente evocando as obras da colorida escola russa.

Villa-Lobos não absorve a politonalidade de Milhaud nesta altura, embora empregue moderadamente, uma grande ingenuidade de dissonâncias coloridas e outros efeitos especiais. Embora Villa-Lobos seja reconhecido por usar instrumentos tradicionais nas suas obras mais populares, elas são usadas raramente nesta obra – de facto esta obra é tão rica em ritmo e cor que o ouvinte pode desconsiderar o quão pouco o compositor deu uso à percussão.

A flauta é um instrumento solista preponderante nesta partitura, tanto para o canto dos pássaros como na melodia do “feio velho homem”, juntamente com o violino solista. Villa-Lobos também usa um estranho instrumento chamado de “violinofone”. Trata-se de um corpo de violino constituído por uma campânula ressoadora. Foi desenhada com o intuito para sessões de gravação analógica, onde o som do violino é recolhido directamente pela campânula, produzindo uma estranha reverberação fantasmagórica.

Embora Villa-Lobos tenha, presumidamente, tido uma ampla oportunidade de apresentar esta obra logo que se tornou famoso em Paris na década de 20, ele não a aproveitou. Em 1935, o compositor obteve um contrato para três concertos no Teatro Colón em Buenos Aires (Argentina), onde deveria incluir obras suas. Aquando da visita de estado do presidente brasileiro Getulio Vargas a Argentina, foi pedido a Villa-Lobos um concerto adicional, em honra do seu Presidente. Assim, o compositor viu-se forçado a apresentar esta obra, designando-a como poema sinfónico, e que após esta estreia, tornou-se popular como obra orquestral e partitura de bailado.”

Joseph Stevenson (AllMusic)

Sons desta Noite: “Es muss sein!” – Cânone a 4 vozes WoO 196 e o Quarteto op.135 (4ºandamento) de L.v. Beethoven

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“A coisa passou-se assim: um certo senhor Dembscher devia 50 florins a Beethoven, e o compositor, sempre falido, foi pedir-lhos. “Es muss sein?, tem de ser?”, suspirou o pobre Dembscher, ao que Beethoven replicou em tom jocoso: “Es muss sein!, tem de ser!”, imediatamente anotou as palavras no seu caderninho e compôs a partir desse tema realista uma pequena peça a quatro vozes: Três cantam “ess mus ein, ja, ja, ja, tem de ser, tem, tem, tem” e a quarta acrescenta: “heraus mit dem Beutel! puxa da bolsa!”.

Esse mesmo tema tornar-se-ia mais tarde no núcleo central do quarto andamento do último quarteto opus 135. As palavras “es muss sein!” adquiriam para ele uma tonalidade cada vez mais solene, como se tivessem sido proferidas pelo Destino.(…)

Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cómica num quarteto sério, uma brincadeira numa verdade metafísica. É um exemplo interessante de passagem do leve ao pesado (portanto, segundo Parménides, de transformação do positivo em negativo). E, coisa curiosa, essa mutação não nos surpreende. Pelo contrário, ficaríamos era indignados se Beethoven tivesse passado da seriedade do seu quarteto para a leveza do cânone a quatro vozes sobre a bolsa de Dembscher. E, no entanto, teria agido em perfeita consonância com o espírito de Parménides: teria mudado do pesado para o leve, ou seja, do negativo para o positivo! No começo, teria havido (sob a forma de um esboço imperfeito) uma grande verdade metafísica e, ao fim (como obra acabada), a mais leve das brincadeiras. Só que já não sabemos pensar como Parménides.

“A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera. Edições Dom Quixote, p.224-225.

Sons desta Noite: Missa a 6 vozes “Miserere Mihi Domine” de Frei Manuel Cardoso

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“Uma das figuras mais ilustres da música portuguesa, Fei Manuel Cardoso nasceu na vila alentejana de Fronteira, em 1566. Foi portanto contemporâneo de Claudio Monteverdi que era apenas um ano mais novo. Supõe-se que tenha ingressado no Colégio de Évora em meados da década seguinte. Em 1588 tomou o hábito, não se sabendo ao certo qual fora e de onde desenvolvera entretanto a sua actividade. Temos notícia que professou em Lisboa, no Convento do Carmo, em1589. Exerceu as funções de mestre capela e foi repetidamente eleito sub-prior. Em 1631 deslocou-se a Madrid. A sua perícia de músico foi então posta à prova e temos razão de crer que deixou favorável impressão na corte de Filipe IV. Maior fundamento nos assiste ainda para o sabermos altamente cotado junto da casa de Bragança. O duque e futuro rei D.João IV, possivelmente seu discípulo, tinha por ele grande consideração e amizade.

(…) A primeira missa está construída sobre o cantus firmus rigidus da antífona da hora de Completas que se canta per annum.

Escrita em Tetradus Plagal, para usar a velha nomenclatura, tem a particularidade de conservar o tema com a respectiva letra do princípio ao fim da missa. Este sistema foi muito praticado antes e depois do Concílio de Trento. Palestrina escreveu sete missas neste género.

Do Kyrie sobressai desde logo a mestria do compositor, que deve entender-se não só como evidência de perfeitos conhecimentos teóricos, mas também como eficiência da ordem artística, sempre imbuída de profunda religiosidade. Note-se por exemplo, no Gloria, a intensificação expressiva perto do fim, a partir de “tu solus Dominus, tu solus Altissimus”. Ou a indizível doçura do Benedictus, cantado só por superius I e II, altus e tenor (isto é, sem a outra voz de tenor nem a de baixo), em contraste coma exaltação do Hosanna. Ou ainda, o belo efeito de riqueza sonora obtido no Agnus Dei, sem recurso a outros meios que não os da polifonia imitativa que enforma toda a obra, não afectada pelo estilo então moderno que se praticava noutros países da Europa.”

João de Freitas Branco (1965?) in Portugaliae Musica Vol.3 – Musique Portugaise Polyphonique – LP

Sons desta Noite:”Gona Rubian Ranesa” (2020) dos Reynols

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Após um interregno de 17 anos (já passaram assim tantos anos?), os Reynols estão de volta! Sim, a mítica banda de rock argentina, no seu estilo… caótico e libertário, onde a atitude está acima de tudo. Até da Música na sua construção mais convencional! Conheci os Reynols pelo albúm “10000 Chickens Symphony” de 2000 – uma ode à electrónica underground, onde os sons de milhares de galinhas transformam-se em ondas sonoras de retumbante expressividade! Em outros trabalhos, a banda assume a sua formação base – guitarras, baixo e bateria – e dão uso a padrões rítmicos e harmónicos básicos, tocados em constante repetição. Mas é a combinação destes e nas distorções constantes que a Música ganha um novo patamar musical.

Quem não conhece os Reynols, poderá sentir repulsa inicial pela Música tão aparentemente desconexa e feita de modo leviano. E têm razão: o objectivo também é ser música desconexa e leviana. A banda pretende celebrar uma atitude, a atitude irreverente, do rock sem compromissos, livre, vivido sem pudor e sem restrições. O seu líder baterista e cantor é a epítome desta atitude, que apesar de ter síndrome de Down, atira-se a cada performance com o mesmo convicção que nos anos 90. E este último trabalho – quatro faixas num albúm “Gona Rubian Ranesa” – é um revigorar da linguagem rock caótica de outros tempos, mas provavelmente num tom mais maduro. Alguns dirão, menos irreverente. Também. Mas não deixa de ser Reynols, minha gente!

Sons desta Noite: Sinfonia nº37 K.444 de W. A Mozart ou Sinfonia nº25 MH334 Perger 16 de Michael Haydn

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– A Sinfonia nº37 de Mozart não existe. Pronto, já o disse.

– Como assim não existe? Não são 41, as sinfonias de Mozart, culminando com a “Júpiter”?

– Sim e não. Na realidade, são 40 sinfonias. Embora nas últimas contas, já são 46…

– Não entendo nada! Eu sempre aprendi sobre “Mozart e as suas fantásticas 41 sinfonias, que revelam a evolução da sua maturidade expressiva…os mais finos exemplos de um dos maiores génios da História da Música…”

– Certo, mas a História, por força da sua investigação e inquirição permanente, vai sofrendo actualizações, que nem todos os livros e artistas acompanham. Se eu te dissesse a quantidade de músicos e melómanos que ainda se regem pela lengalenga que acabaste de enunciar…

– Mas, desculpe: a Sinfonia nº37 não existe? Essa não é uma das sinfonias de Linz?

– Não é. A Sinfonia “Linz” é a nº 36, datada de Novembro de 1783, poucos meses depois de Mozart se ter casado. Disso temos a certeza.

– Já estou a ver que isto mete a esposa…

– Nem por isso. Mozart casou-se um pouco a contragosto do seu pai e irmã com Constanze Weber e ficou de apresentá-la em Salzburgo, já que vivia em Viena. Assim o fez entre os meses de Julho e Outubro de 1783.

– E correu bem?

– Não se sabe nada, mas podemos desconfiar que não… Mas é certo que no retorno a Viena, parou momentaneamente na cidade Linz, onde já conhecia o conde da cidade, que o acolheu no seu castelo.

– Mozart vivia bem, em castelos…

– Mas não sem contrapartidas. Pelo que se sabe, Mozart foi convidado a apresentar um concerto com música sua… ao qual Mozart não pôde recusar. Mas não tinha partituras nenhumas!

-Oh Meu Deus…e como fez?

-Bom, decidiu compor uma sinfonia de raiz em três dias.

– Três dias?

– Sim, em três dias compôs, fez partes (ou pediu para fazê-las) e provavelmente teve tempo de ensaiar uma única vez antes do concerto. E lembra-te que na altura não havia computadores, fotocópias…era tudo à mão.

– Afinal, ser convidado para um castelo trazia uma azáfama incrível!

– Nada que o espírito indomável de Mozart não pudesse responder. Aliás, a sua Sinfonia nº36 é de uma maturidade expressiva notável, o que demonstra claramente a genialidade de Mozart e rapidez de escrita.

– Sem dúvida… e a Sinfonia seguinte, a nº37? Não era dessa que falávamos?

– Sim, tens razão. Aquando da morte de Mozart, encontrou-se um manuscrito de uma sinfonia com uma introdução lenta e o Allegro seguinte parte do andamento lento na sua caligrafia e a restante música noutra caligrafia. Pensou-se que seria a tal apressada sinfonia composta em Linz, tendo em conta o tipo de papel e as investigações naquele tempo.

– Mas não era. E depois?

– Os primeiros organizadores da lista de obras por via cronológica de Mozart (Otto Jahn e Ludwig Kochel por volta de 1862), já tendo a partitura da verdadeira sinfonia de Linz, , compararam a estranha partitura a duas mãos tendo em conta o tipo de material, e a situaram como a nº 37.

– Mas o que mudou, então?

– Nas revisões conseguintes da lista de obras, nomeadamente em 1907, as duas caligrafias levantaram suspeição, e logo descobriu-se que a primeira parte fora acrescentada por Mozart a uma Sinfonia em três andamentos de Michael Haydn – a sua Sinfonia nº25 – pois Mozart interpretaria esta obra num ciclo de concertos da sua responsabilidade. A introdução lenta foi completamente composta pelo compositor vienense, sendo os restantes andamentos apenas adulterados na eliminação dos fagotes e pequenas alterações de uma ou outra passagem.

– Michael Haydn? Não seria Joseph Haydn?

– O compositor Joseph Haydn tinha um irmão mais novo, Michael, que muito estimava e tinha em consideração. Até achava que as obras religiosas de Michael superiores à suas! Um compositor a conhecer…

– Bom, está esclarecido. Apesar de tudo, não deixa de ser uma abertura lenta de Mozart!

– Pois não! Podemos sem dúvida apreciar a genialidade de Mozart e depois, três andamentos de de uma sinfonia do irmão mais novo de pai do Classicismo! E já agora, sabes quantas sinfonias compôs Michael Haydn?

– Não sei…

– 41 sinfonias!

– Oh não! Não vamos repetir tudo outra vez, pois não?

Diálogo ficcionado entre um mestre sempre actualizado e um pupilo de curiosidade afiada.