Sons desta Noite: “Nymphéa Reflection” de Kaija Saariaho [orquestra de cordas]

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De uma grande compositora do nosso tempo. Música de Saariaho, inspirada no poema de Arseny Tarkovsky:

Now summer is gone
And might never have been.
In the sunshine it’s warm.
But there has to be more.

It all came to pass,
All fell not my hands
Like a five-petalled leaf,
But there has to be more.

Nothing evil was lost,
Nothing good was in vain,
All ablaze with clear light
But there has to be more.

Life gathered me up
Safe under its wing,
My luck always held,
But there has to be more.

Not a leaf was burnt up
Not a twig ever snapped…
Clean as glass is the day,
But there has to be more.

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Sons desta Noite: “Water Concerto” de Tan Dun [percussão de água e orquestra]

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“O que é Água? Às vezes sentimos a água como a voz do nascimento, ou renascimento. Mas eu sinto a água como lágrimas, lágrimas da natureza. De cada vez que viajo, tenho dificuldade em encontrar água límpida. Quase por todo o lado, ela está poluída. Assim torna-se difícil, para mim, cantá-la com a minha música…

Para mim, a infância, vivendo com água, divertindo-me com água, e tocando musica ritualística com água, tornou-se verdadeiramente inspiradora. Por agora, gasto bastante tempo tentando recompor este tipo de memórias… de recompor esse tipo de experiência, com um novo método. Em Hunan, a água era algo quotidiano para mim. Todos os dias, banhávamo-nos no rio. Todas as senhoras mais idosas usavam o rio para lavar a roupa, fazendo sons lindos, bastante rítmicos.

Tentei de algum modo, transpor estas memórias dos sons de lavar, sons de nadar, sons de corpos a mergulhar para a água, nas minhas orquestrações.

Tecnicamente é bastante complexo, porque temos de encontrar as várias cores, e depois misturá-las esta paleta de cores com a paleta orquestral, e ter as duas paletas misturadas como uma só.

Constantemente estou em dificuldades, para quê? Estou em dificuldades – nem por isso à procura de novos e sons musicais nunca vistos – porque estou à minha procura. Se conseguir encontrar-me, encontro a minha música. A minha teoria, que tem sido a maioria da minha prática não está apenas no visual e no aural, no orgânico e no orquestral, no só ocidental ou no só oriental, ou no interior ou no exterior, ou no passado ou no futuro, mas tudo isso, filosoficamente em busca do que 1+1=1, não 2. É bastante pernicioso e difícil, mas claro, é algo bastante pessoal.

Tan Dun

Sons desta Noite: “Loop Finding Jazz Records” de Jan Jelinek [electrónica]

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“Tomando o que se poderá ler como uma lista bastante austera de ingredientes, a técnica de composição de Jelinek [neste albúm] anda à volta de um trio de elementos que consistem em excertos longos de takes secundários de gravações de jazz dos anos 60 e 70, processando-os através do “Wheel Mod” de busca de loops e usando o efeito “Moiré” em som [efeito de sobreposição idênticos que deslocados, provocam um efeito novo].

Tudo soa algo académico, mas assegure-se que nada no albúm é em tal modo: os ritmos combalidos como edifícios em desmoronamento pulsam vida e nos rodeiam a cabeça como uma tempestade de neve em ebulição com um diabólico nevoeiro gelado. Tomando sedimentos do som de estática e depois escamando a melhor rendição no topo, Jelinek abre através os ecos abafados de “Moiré (piano & organ)” onde cliques em espiral e em movimento lento sussurram tons analógicos, dando a impressão de perspectivas recônditas que se estendem para dos elementos constituintes.

Mais adiante, “Rocky in the Video Age”, instiga um blush gratuitamente optimista até uma fluxo aquático de micro-sons, “Moiré (Strings)” é a companhia perfeita para o arquivo em fita em de composição de [William] Basinki, enquanto que “Them, Their” representa uma curvatura aural tão vincada que só se consegue apanhar o seu distintivo brilho pelo canto do olho.

Crítica da loja Boomkat.

Sons desta Noite: “Two Studies on Ancient Greek Scales” de Harry Partch

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O profundo compromisso de Harry Partch pelo uso da afinação justa (onde todas as notas são expressas em rácios inteiros entre si), exigiu ao compositor a invenção de numerosos instrumentos novos que poderiam executar até 43 notas diferentes dentro de uma oitava.

Estas peças curtas são o resultado da invenção do instrumento “Harmonic Canon”, que consiste em 44 cordas esticadas sobre uma mesa plana, como um zither do tamanho de um móvel. As cordas estariam afinadas em uníssono enquanto que os cavaletes móveis criariam diferentes alturas de som. Elas poderiam ser dispostas para criar qualquer tipo de escala. O instrumento foi chamado de “canon” no sentido que o posicionamento dos cavaletes “fixavam a lei” da escala a ser usada em cada peça.

Estas duas peças foram escritas para o instrumento em 1946, empregando duas escalas antigas. O primeiro estudo é uma escala que se encontra virtualmente em qualquer cultura, a escala frígia pentatónica. O uso desta escala faz do primeiro estudo uma peça estranhamente oriental. É uma peça em andamento moderato, com uma melodia atraente.

A outra escala é tão estranha como a primeira é comum. É a escala tetracorde enarmónica da Grécia Antiga, cujo os segundo e sexto graus foram baixados para fora de qualquer afinação comum, sendo microtons. Quando estas notas aparecem no estudo, elas soam amargas (mas estranhamente puras, ao mesmo tempo) com referência à escala tradicional A sua qualidade expressiva é algo como as notas “blues”.

A peça foi originalmente escrita para um instrumentista solo com o “harmonic canon”. A mão direita tocava as cordas afinadas na escala dada, enquanto a outra mão abafava as cordas em determinados pontos para produzir acordes. Em 1950, Partch acrescentou a sua marimba-baixo a esta obra e tornou estes dois estudos nos primeiros dois andamentos da suite “Intrusions”.

A partitura original dos estudos perdeu-se (apesar das gravações sobreviverem). Depois da morte de Partch, o guitarrista John Schneider, ao replicar o instrumento original de Partch em uma guitarra adaptada, arranjou a obra acrescentando uma harpa celta de cordas de metal à guitarra adaptada, com a corda mais grave da guitarra duas oitavas abaixo do Dó, de maneira a executar as notas da marimba-baixo.

Joseph Stevenson

 

Sons desta Noite: “Caressant l’Horizon de Héctor Parra [ensemble]

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“(…) Em Caressant l’Horizon, Párra conjuga metáforas do mundo da Física e Biologia para dentro de um sistema lógico holístico, onde na qual o artista situa a sua posição ética e estética.

Se porventura a natureza é retratada muitas vezes de modo pitoresco ou estereotipado no romântico “Tondichtung”, em Caressant l’Horizon, encontramos a justaposição dialéctica de duas realidades incomensuráveis: por um lado um pequeno jardim na imensidão inimaginável do universo, e por outro lado, os limites inultrapassáveis do espaço-tempo, que,  de acordo com a teoria geral da relatividade, é atingida a máxima distorção do continuum espaço-temporal. Assim, o compositor atenta ” imaginar o que poderíamos experienciar fisicamente as ondas gravitacionais de intensidades inimagináveis despoletadas pela colisão de dois buracos negros.” A ideia hipotética de “acariciar” o horizonte do evento de um buraco negro, que marca a fronteira entre essa realidade que é habitada pela nossa frágil e fugaz existência humana com a área proibida, onde as dimensões de espaço-tempo colapsam – esta é a ideia-base para a dramaturgia musical de Héctor Parra. (…)”

José L. Besada, in CD “Caressant l’Horizon” de Héctor Parra, pela Col Legno Recordings.