Sons desta Noite: Segunda Sinfonia “Ressureição” de Gustav Mahler

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Numa carta escrita ao seu amigo e confidente Max Marschalk:

“Eu chamei o primeiro andamento de “Rito Fúnebre” (Totenfeier), e, se está curioso, é o herói da minha Sinfonia em Ré Maior [A Titã] que enterro aqui e cuja vida lanço a um límpido espelho, numa visão elevada. Ao mesmo tempo, há esta grande questão: “Para quê, tu viveste?” Para quê, tu sofreste? Será isto tudo, afinal, uma grande anedota? – devemos resolver estas questões de uma maneira ou outra, se pretendemos continuar a viver – sem dúvida, mesmo que estejamos apenas a caminho da morte! Assim que este chamamento se instala na nossa vida, nós devemos dar uma resposta, e eu a dou no andamento final”.

Sons desta Noite: “Tentações de São Frei Gil – 3 Fragmentos” de Luís de Freitas Branco [orquestra]

Luís de Freitas Branco, com 20 e poucos anos, lançou-se na exigente tarefa de compor uma extensa oratória para solos, coros, orquestra e orgão, baseada na história de São Frei Gil, como relatado em poema ficcionado no livro “Tentações de São Frei Gil” de António Correia de Oliveira, em 1907. Um livro de carácter simbolista, que inspirou o então jovem compositor português para uma obra musical com ímpeto impressionista.

Se tal obra foi finalizada por volta de 1912, é certo que nunca viu a luz do dia. Freitas Branco destruiu a partitura, apenas restando três andamentos orquestrais. Os três andamentos intitulam-se como Prelúdio – Tentação da Morte – Tentação da Vida.

João Bettencourt da Câmara descreveu fenomenalmente estes três andamentos:

“Uma grande homogeneidade semântica dá coesão ao conjunto. Para além das peripécias da vida de Gil Rodrigues, aventureiro, mago e santo, a Luís de Freitas Branco, como também a Eça de Queirós, parece ter impressionado no tema de uma certa dialéctica da vida e da morte explicitada pelos títulos dos dois trechos da obra: Tentação da Morte e Tentação da Vida. Domina todo o tríptico um ambiente carregado e lúgubre. de que el só se liberta nos últimos compassos da terceira parte.

O tema inicial do Prelúdio é constituído por acorde paralelos que movendo-se pesadamente na região grave da harmonia, nos introduzem imediatamente na atmosfera geral da composição. O oboé solo contrapõe expressiva melodia que flautas e o violino I repetem, por entre os compassos pizzicato dos demais instrumentos de cordas e da harpa. As madeiras, porém, retomam o sombrio tema anterior. Na passagem seguinte, os trémulos das cordas e os glissandi da harpa assumem declaradamente a lição de Debussy. (..) a 1ª ideia é relembrada pelas madeiras, antes do Prelúdio se extinguir na taciturnidade de contrabaixos e violoncelos, a que respondem, suavemente, na região aguda os violinos.

O trecho intermédio Tentação da Morte foi concebido só para as cordas que, por necessidade de uma harmonia muito densa, sofrem vários divisi. O avançar compassado do discurso musical parece confirmar a intenção do compositor de sugerir com esta passagem a a ideia de marcha fúnebre. O tema em acordes paralelos reaparece descendentemente nos violinos, primeiro, nas violas e violoncelos depois. A estrutura global deste trecho é tripartia, visto que a concluir são parcialmente repetidos os seus compassos iniciais.

O andamento final, Tentação da Vida, é o mais elaborado dos três. O solo de trompa que o abre e constitui a sua principal ideia musical, parece querer significar a firme determinação de superar o carácter negativo das passagens anteriores. Esta determinação é, todavia submersa de novo numa atmosfera carregada, com o aparecimento de um motivo diferente introduzido progressivamente por diverso instrumentos. Os quatros tons consecutivos do trítono dão a esta passagem um claro sabor impressionista (escala de tons inteiros), sem lhe retirar uma cor escura. (…)”

Sons desta Noite: Concerto para Piano e Orquestra op. 20 de A. Scriabin

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Hoje, Alexander Scriabin é reconhecido como uma das grandes figuras importantes da música russa novecentista, embora fora dos círculos nacionalistas de Rimsky-Korsakov ou românticos de Tchaikovsky ao tardio Rachmaninov. Onde ele se encaixa, afinal? Na prática, em lugar nenhum. Durante toda a sua vida, sempre foi visto e escorraçado pelos seus contemporâneos como um pária, um narcisista tresloucado.

Scriabin era um exímio pianista, algo reconhecido pelo meio musical de então, como Stravinsky, que o via como um “Chopin russo”. No entanto, Scriabin, pelo seu temperamento irrascível e atitudes estranhas e tempestuosas, coleccionou ódios e inimigos. Os seus professores de Composição por exemplo, Rimsky-Korsakov e Taneyev consideravam-no convencido, indomável, “estranho e distorcido” – e dos seus contemporâneos. Alexander Glazunov, por exemplo, via-o como um louco, um demente.

Com cerca de 24 anos e uma técnica invejável ao piano, decide com clara ambição, compor um Concerto para Piano. O seu opus 20, supostamente composto em poucos dias no Outono de 1896, levaria na realidade vários meses a ser composto, principalmente pela parte de orquestração.

Este concerto que descobri há pouco na técnica invejável de Daniil Trifonov, com a Filarmónica de Berlim e Andris Nelsons, num concerto datado de Junho de 2019, apresenta grandes arcos melódicos, com rasgos de furor romântico e passagens surpreendentemente melancólicas e silenciosas.

Se porventura, podemos encontrar grandes inspirações em Chopin, este concerto não é de nenhum modo comparável aos do compositor polaco: ultrapassa-os e torna-se rebelde. Este concerto apresenta por um lado, inspirações passadas, como aponta lacinantemente para o seu futuro, onde os concertos para Piano de Rachmaninov, com toda a certeza, beberam dramatismo. Esta é uma constatação interessante pelo facto de Rachmaninov ter alguma animosidade para com o colega Scriabin… Aquando da publicação deste concerto em 1898, Glazunov afirmou: “esta obra prova, sem margem para dúvidas, que Scriabin perdeu a mente”. Ao qual, o jovem Rachmaninov respondeu laconicamente: “Havia alguma mente por perder”?

Seria preciso passar alguns anos, uma emigração forçada para os Estados Unidos, para que o adulto Rachmaninov sentisse a mente escapar pelos dedos e por fim refugiar-se…. na composição de concertos para piano com inspiração scriabiniana (dedução minha). Os loucos reconhecem-se, por fim.

Sons desta Noite: Zoltán Pesko (in memoriam)

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Zoltán Pesko foi um dos mais aclamados maestros húngaros, com uma enorme contribuição na divulgação dos compositores do seu país, principalmente de século XX. Um maestro versátil e sem receios de ir contra a norma canónica do repertório orquestral, e foi através dele que ouvi excelentes gravações de obras de Bartók, Kurtág e Ligeti.

Foi maestro da Orquestra Sinfónica Portuguesa, marcando indelevelmente a programação do Teatro São Carlos, entre 2001 e 2004.

Aqui, com o pianista Zoltan Kocsis, na interpretação do Concerto nº1 de Béla Bartók.

Sons desta Noite: Quarteto de Cordas nº15 op.132 – 3ºandamento de L.V.Beethoven

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Os quartetos de cordas finais de Beethoven (op.130 a 135) são de uma profundidade, sobriedade e impacto musicais e humanos inesquecíveis. Tal facto torna-se ainda mais acutilantes, se pensarmos que estamos perante os anos finais do compositor, onde a surdez e o estado mental já estava em estado considerável de deterioração, adido de diversos problemas de saúde, nomeadamente de estômago e do trato intestinal, que viram, por fim, vitimar Beethoven.

Estes quartetos são o testemunho de um ser humano, que apesar de não se rever em nenhuma religião como era o caso de Beethoven, vê na sua condição humana – perecível, definhadora – uma alavanca para a criação musical. este quartetos não nos contam uma história, não nos transmitem dor ou aflição, apenas celebram a vida como ela é: com altos e baixos, com momentos de impulso, de marasmo e de oração – um acto não exclusivamente religioso, mas sim reflexivo.

Este quarteto nº15 op.132 é testemunho disso mesmo. Encomendada por um príncipe russo e violoncelista amador, encomendou “três ou quatro quartetos” ao ilustre compositor, pagando boas somas de dinheiro.

Ora passado um ano da encomenda, Beethoven não tinha sequer começado. A sua saúde deambulava entre o febril e o melancólico, e os problemas de intestinos e estômago mostravam-se cada vez mais severos, tendo sido aconselhado pelo seu médico e abster-se de bebidas e encontrar descanso na vila de Baden. Foi porventura por ali, que Beethoven escreveu este massivo quarteto, com 45 minutos de extensão.

Mas a curiosidade da sua condição é revelada de maneira tumular, em poucas palavras no 3º andamento, incaracterísticamente lento: “Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart” (Canção de Agradecimento à Deidade de um convalescente, em modo Lídio).

Com Música, Beethoven tece um comovente 3ºandamento, evocando um antigo modo medieval, com secções alternadas entre o fervoroso lento e o esperançoso allegro. As evocações em fuga de um contacto além-mundano é de uma acutilância emocional feroz.