Sons desta Noite: “Por Amor ao Piano” – documentário sobre Sequeira Costa

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No desaparecimento de Sequeira Costa, fica o seu legado como pianista e professor. Documentário “Amor ao Piano” de 2009.

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Sons desta Noite: “Mégalithes” de Gérard Grisey [ensemble de metais]

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” (…) Mégalithes é anterior a estes desenvolvimentos [da música espectral], composta em 1969 quando Grisey tinha apenas 23 anos. A combinação do título sugestivo com a instrumentação de 15 instrumentos de sopros de metal ( 4 trompetes, 4 trombones, 6 trompas e tuba, distribuída pelo espaço de performance) não sugere tanto a criação musical mas uma edificação erecta de granito. A motivação de Grisey não foi impessoal: descreveu como uma “obra composta à memória das vítimas de Biafra”, Mégalithes relembrar das milhares de vítimas inocentes da Guerra Civil Nigeriana, que teve lugar nos últimos três anos da década de 60.

As conotações destas duas inspirações são estabelecidas logo de início, Grisey sobrepõe notas pedais em uníssono, insinuando algo largo e portento, somente para mudar abruptamente para glissandis ascendentes, antes de dividir numa densa tempestade de disparos de notas. Este assalto sonoro é por sua vez substituído enfaticamente por um episódio contrastante, com o produto de sons emanados de surdinas e bocais, tomando o lugar das notas, sons aéreos percussivos, com alguns distantes sons murmurantes.

Grisey restabelece a altura sonora com um eco da início, outro uníssono, instigando a tuba para um solo extensivo; não é exactamente uma linha melódica o que a tuba traça, mais uma sequência de pequenas simples frases, muitas delas repetidas, e executadas de maneira superficial. Tendo apenas um instrumento ou todos os 15 instrumentos em execução, é certo que todos caminham para um fim comum, fazendo-o de maneira homogénea. As mudanças hécticas não são desuniões mas mais pausas de retirada de uma relação de longa data; da mesma forma, nos momentos de retirada, todos produzem uma paisagem sonora com o mesmo tipo de diálogo performativo, combinando e imitando uns aos outros.

Superficialmente, a música aparenta ser grotesca mas é certamente evocativa de um tipo pré-estético de elementalismo implicado no título. Criado brutalmente, barroco, sólido, implacável – não é difícil encontrar paralelismo com o impacto tenebroso humano que sucumbiu na povo nigeriano – e mesmo assim, também existe beleza na música. Admitidamente, às vezes a beleza é apenas encontrada num espaço negativo, os breves momentos de silêncio que pontuam o material, e seria erróneo sugerir que Mégalithes é tudo menos uma peça séria, sóbria e solene acto de expressão. Claramente, é uma obra conflituosa, simbolizada pelo fim da obra: uma pausa prolongada seguida de um indescritível agregado harmónico que seria altamente dissonante se não fosse tocada de modo suave, com notas em queda livre, deixando de modo oblíquo um tipo de quinta perfeita. Se existe algum acorde que encapsule todas as emoções humanas, é este.”

In 5:4 website.

Sons desta Noite: Sinfonia nº3 (1976) de Henryk Gorécki

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No Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.

Henryk Gorécki estabeleceu-se com um dos compositores mais reconhecidos do final do século XX, com um estilo musical cuja pertinência e acessibilidade encontrou um vasto e diverso público. O seu reconhecimento internacional foi lento inicialmente. E apesar das suas obras orquestrais e de câmara das décadas de 60 e 70 tinham aceitação em públicos da Polónia e críticos estrangeiros, foi a 3ª Sinfonia que eventualmente catapultou Górecki para os holofotes da música erudita.

A Sinfonia nº3, intitulada de “Sinfonia de Canções Tristes” é escrita para orquestra e soprano solista, com três andamentos.

O primeiro andamento e mais longo, com andamento de “Lento sostenuto tranquilo ma cantabile”, inicia com um cânone lento e deliberado, cujo sujeito é adaptado de uma antiga canção popular polaca. No seu auge, o cânone é interrompido pelo soprano, cantando um fervente lamento a Jesus Cristo na voz de Maria: “Meu amada filho escolhido, partilha com a tua mãe, as tuas feridas…” Este texto é retirado das “Canções de Lysagóra”, uma colecção sacra datada do século XV. No mais curto mas igualmente potente segundo andamento, um fundo harmónico diluído cria uma paleta sombria sobre as palavras agonizantes que foram encontradas raspadas nas paredes da prisão da Gestapo, por uma jovem de 18 anos. O tom aqui torna-se  igualmente religioso: “Mãezinha, não chores, mais Pura Rainha dos Céus, reza, não me abandones, Avé Maria”. O terceiro andamento, construído sobre um série de variações, mais uma vez visita o tema inicial da mãe que chora o seu filho; este tema deriva da canção popular polaca.

Apesar da intensa expressividade e linguagem musical clara desta sinfonia, a sua fama não pode ser atribuída apenas ao seu estilo  – de facto, Górecki foi uma figura obscura para o público americano durante algum tempo depois da composição desta obra, enquanto que gravações avulsas da obra receberam vendas modestas. Contudo, numa feliz convergência de estilos, marketing eficaz e mudanças no gosto do público, a gravação de 1992 da sinfonia, pela London Sinfonietta e o maestro Dawn Upshaw tornou-se num ápice num dos best hits do ano, vendendo milhões de cópias. Esta obra de compositor polaco, tocou num nervo universal e falou para um público mais abrangente que qualquer obra clássica do seu tempo.

Jeremy Grimshaw

Sons desta Noite: “Ekphrasis (Continuo II) de Luciano Berio [orquestra]

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Ekphrasis (continuo II) é um comentário reservado e reflexivo de um adágio que escrevi em 1990. É um comentário numa paisagem contínua formada por uma interlaçado de padrões repetíveis.

Não tive nenhuma intenção de compor uma metáfora musical para a arquitectura enquanto trabalhava em Continuo. Nem quis escrever uma homenagem musical a famosos arquitectos de Chicago, como Sullivan, Wright ou Mies vann der Rohe. Nem quis construir nenhuma directa referência para as construções tanto divertidas como intelectuais de Renzo Piano, cuja obra eu admiro. Durante o período de composição, contudo, apercebi-me que foi isto exactamente o que aconteceu. Os processos musicais dentro da textura de Continuo têm, indubitavelmente, semelhanças com principais arquitectónicos, em forma abstracta, se não na sua forma estática. Os padrões musicais resultam numa construção completamente impraticável, sem portas ou corredores. A sua expressividade atraente, mesmo assim, reside na contradição de ser inabitável por um lado, e por outro, aberto a qualquer um para extensões alternativas por acrescento de novas asas, quartos e janelas.”

Luciano Berio