Sons desta Noite: “Chroniques de la Lumiére de Francis Dhomont [electrónica]

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Estas “Crónicas” são a versão sónica impressionista de elementos visuais – um acto indubitavelmente metafórico – um sonho pessoal de luz baseado no conceito do artista visual de Montréal, Luc Courchenes.

Com transposições sonoras de fenómenos luminosos, raios naturais ou de múltiplos artefactos, “Chroniques de la Lumiére” compreende 3 andamentos: “Miroitements” (Brilhos), Artifices (Artifícios) e “Météores” (Meteoros) ou, se preferirem: Adagio, Allegro, Presto Finale.

“Miroitements” é uma música lenta e contemplativa. Traz-me à memória o nascer-do-sol ou  pôr-do-sol, luzes do norte, progressivamente movendo-se da sombra para as nuvens e suaves mudanças da luz reflectida na água. (…)

“Artifices” relata a luz feita pelo homem, desde o fogo primitivo até ao mais sofisticado laser. Procede a uma mudança progressiva do som branco e desordem (entropia) até À onda sinusoidal, ao som de altura definida.

“Météores” prossegue uma progressiva avalanche de elementos, por acumulação lenta, um incremento de densidade e um reforço da sensação de velocidade e energia cinética.

Francis Dhomont

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Sons desta Noite: “Berceuse” de Arturo Toscanini [piano]

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“Nos seus últimos anos, Arturo Toscanini sempre afirmava que a razão pela qual dedicou a sua vida à Direcção de Música de outros era ele não possuir nenhum talento para composição. Como prova disso mesmo, citava frequentemente o seu “Berceuse” para Piano e apontava as suas falhas estruturais. No entanto, embora estivesse correcto nas inerentes fraquezas da peça, a peça não é de todo, uma má peça, simplesmente não uma genial, e as várias canções que escreveu são ainda mais interessantes, mostrando uma mente musical que poderia ter desenvolvido linhas interessantes se tivesse aplicado tempo nesse investimento. (…)

A música de Toscanini, assim, não é a obra de um génio inspirado, mas está longe de ser um compositor incompetente, como ele próprio se designava. Foi um início satisfatório para um jovem que absorveu muita música à sua volta e se tornaria rapidamente, num dos maestros maiores e mais influentes de todo o mundo. (…)”

Lynn René Bayley (2016), in The Art Music Lounge

Sons desta Noite: “Concerto para Harmónica e Orquestra” de Heitor Villa-Lobos

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“O Concerto para Harmónica e Orquestra de Villa-Lobos foi composto no que é considerada a sua fase final como compositor. Começando por volta de 1945, esta fase é caracterizada pelo geral afastamento das influências folclóricas brasileiras e num interesse crescente na performance virtuosística. Durante este tempo, Villa-Lobos compôs diversos concertos, nomeadamente para violoncelo, harpa, piano e harmonica. (…)

Composto entre 1955-56, o presente concerto tem a duração de cerca de 17 minutos, tendo a sua estreia pelo tocador de harmónica americano, John Sebastion, em 1959, em Jerusalém, ano de falecimento do compositor. O executante britânico Tommy Reilly teve um papel fundamental na ressurreição desta obra do esquecimento ao incluí-lo no seu repertório concertante habitual. Reiily fez igualmente a primeira gravação do concerto em 1979, com a London Sinfonietta. (…)

Franklin Stover, in AllMusic

 

 

Sons desta Noite: Missa para a Libertação dos Escravos [Reféns] de Baldassare Galuppi

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Baldassare Galuppi foi um dos mais importantes compositores da sua geração em Itália, juntamente com os seus contemporâneos C.P.E. Bach, Domenico Scarlatti ou Gluck.

A sua importância vai muita para além do seu acervo composicional em estilo galante – um compositor prolífico, especialmente no género operático – mas principalmente na sua contribuição prática e genialidade contrapontística em géneros importantíssimos nas épocas seguintes. Foi um dos precursores do género sonata para instrumento solo – muitas vezes atribuído a Scarlatti, ignorando por completo, Galuppi – pela quantidade de obras em vários andamentos contrastantes compostas para cravo; como é considerado hoje um dos criadores da opera buffa, na sua acepção mais alargada. Com mais de cem óperas, o seu engenho em conduzir enredos musicalmente e principalmente, a reunião do ensemble de personagens num finale catártico é a sua principal marca.

Também no campo religioso, Galuppi é uma testemunho de riqueza, com várias obras destinadas, como esta Missa pela Libertação dos Escravos, escrita por volta de 1765, quando era mestre-capela em São Marcos.

O contexto desta Missa ,constituída apenas por 3 partes do Ordinário da Missa Católica Apostólica Romana, remete para o rapto de personalidade abonadas por piratas mercenários e que se encontravam reféns contra resgate, e que em apelo divino, foi encomendada esta missa, tanto em ritual como em obra musical.

Sons desta Noite: Sinfonia nº1 de Alfred Schnittke [orquestra]

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Concebida como uma “a-sinfonia”, a Sinfonia nº1 de Schnittke aparece décadas antes do reconhecimento da necessidade de reinvenção das orquestras na sua missão e futuro. O compositor desafiou ouvintes e executantes a questionar a viabilidade da pedra fundamental do repertório orquestral – a sinfonia – na sua iconoclástica Primeira Sinfonia (1969-1972).

“- É uma tentativa” – explicou Schnittke, “de reconstruir a estrutura clássica dos quatros andamentos da sinfonia (com uma dramática forma-sonata, uma scherzo “divertidito”, um filosófico Adagio e um libertador Finale) – uma estrutura que entretanto foi destruída pelo desenvolvimento da Música – de fragmentos e restos, providenciando novo material onde deixou de existir”.

Os “restos” que Schnittke refere, rpovêem de Beethoven, Chopin, Strauss, Tchakovsky, Haydn, canto gregoriano, já para não falar da sua própria música anterior para filme e teatro, que providenciam partes banais, desde fragmentos de ragtime e marchas de banda ao pop. O novo material inclui uma extensa improvisação de free jazz. Isto é música que não mostra complacência; os fragmentos e alusões colidem e refractem num perturbante caleidoscópio de caos, apesar de um fantasmagórico lirismo emergente.

A sinfonia também foi concebida como arte performativa. O drama da performance sinfónica que tantas vezes é tomada como garantida (as entradas e saídas de maestros e músicos) foi explicitamente coreografada pelo compositor.

Permitida apenas em uma única, agora lendária, performance nas províncias da ida União Soviética em 1974, a Sinfonia nº1 de Schnittke foi a sua obra de consagração. Cimentou a sua reputação como compositor “poli-estilista”. Em 1988, quando as audiências americanas ouviram pela primeira vez pela Sinfónica de Boston (dirigida pelo seu dedicatário Gennady Rozhdestvensky), algum do público saíram da sala, indignados. Os restantes ficaram e aplaudiram entusiasticamente.