Sons desta Noite: Álbum “Not Tight” (2022) de DOMi & JD Beck

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Encontrar música fresca feita por jovens prodígios traz sempre duas sensações simultâneas: fascínio e preocupação. Ambas as sensações não são necessariamente dicotómicas, mas trazem relevo à visão de futuro de jovens, que já no auge das suas capacidades, poderão não sustentar uma carreira musical sustentada e propensa – como já vários exemplos nos ditam – onde guinadas estilísticas, conflitos internos, crises de criatividade e persona e reclusão forçada das luzes da ribalta.

Mas não lancemos já aos leões, dois jovens promissores e plenos de energia, que se lançam no Jazz mais popular e moderno que podemos ter – Jazz-Funk [& Cute – minha adenda] com muitas pinceladas de Breakbeat – falamos do fenómeno da dupla DOMi & JD Beck. A francesa teclista de 22 anos, Domi Degalle e o baterista americano de 18 anos, JD Beck tornaram-se desde a sua estreia em 2018, na mais meteórica ascensão de um dupla de músicos, embalados obviamente (e apadrinhados no caso do baterista) pelo sucesso dos Snarky Puppy e na ideia do one-man-does-it-all do Jacob Collier. Embora na comparação, Collier tem uma banda de grandes músicos em auxílio à sua genial hiperactividade multi-instrumental, mas DOMi & JD Beck sabem perfeitamente os seus papéis. A teclista tem a tarefa hercúlea de executar em dois sintetizadores tanto a harmonia irrequieta como a leading voice improvisada, sem contar com uma mão esquerda que podia ser que podia ser de um baixista de corpo inteiro. Por outro lado, JD Beck é o completo oposto de um baterista, seja qual for a estirpe: tem uma postura quasi-imóvel e contida ao instrumento, sem grandes gestos extemporâneos mas altamente eficaz e frenético na conjugação da caixa abafada/bombo/hi-hat que nos faz sempre voltar ao estilo “drum n bass” dos anos 90, mas de modo mais inventivo e nunca entediante.

O albúm “Not Tight” é desta forma o primeiro albúm da dupla, que demonstra a enorme cumplicidade musical destes dois músicos, perfeitamente entrosados em construir música versada nas novas gerações, que se habituaram a ouvir música pop repetitiva e de curta duração mas de máxima catarse. E de preferência com algum rapper a debitar letras de impacto juvenil (desculpem fãs dos Anderson Paak., ele é aqui apenas uma nota de rodapé a todos os níveis). Domi & JD Beck fizeram exactamente isto mas ao mesmo tempo, lançando os mesmos ouvintes na riqueza da música não linear – compassos irregulares, harmonias ricas em modulação e inquietude e improvisação jazzística de enorme atractividade – deixando no final de contas, todos assoberbados. E este choque que mais me fascina nesta dupla, pois quem já ouviu muito do Jazz que adveio do Bebop, do Free-Jazz, de um Miles Davis ou de um Herbie Hancock (que participa no álbum na faixa “Moon” sendo a figura proeminente de validação da dupla e curiosamente na faixa mais longa do álbum), ou por outro lado viajou na vertiginosa evolução da “dance music”, da Disco ao House, do Drum n’Bass e o Jungle (juventude, onde tu já vais!); este álbum traz muitos momentos de prazer, algum necessário tédio, deveras saudosismo e muita esperança.

De longe, as melhores faixas para mim são sem dúvida “Smile”, “Not Tight”, “Duke”, “Whoa” (grande Rosenwinkel!) e “Sniff”, mas aconselho a audição integral, e melhor ainda, acompanhados de uns bons headphones ou monitores, uma bebida e boa companhia.

Brindemos aos novos valores que se levantam mas mantêm o bom gosto da música rica, diversificada, Música nova mas fortemente conhecedora da Música do passado. A DOMi & JD Beck uma carreira frutífera e sem receios da longevidade artística: ela virá, fará teste e mossa. Interessa permanecer e maturar o percurso.

PS: oiçam as rendições da dupla anteriores ao albúm, como os jazz standards “Giant Steps” (aka “Giant Nuts”) ou “My Favourite Things”, entre outros. Delícias!

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Sons desta Noite: Sinfonia nº9 (1986) de Malcolm Arnold [orquestra]

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(…) ” Aquando da encomenda a Arnold da 8ª Sinfonia, A BBC já tinha mostrado interesse em encomendar a Sinfonia nº9 op.128 para que esta fosse estreada no “European Music Year” de 1985. Infelizmente, a rápida deterioração da saúde e estado mental do compositor na década de 80 (que resultou numa depressão severa com tendências suicidas) significaria que efectivamente deixaria de compor entre 1982 e 1986. Graças em grande parte, à devoção do seu companheiro de vida, Anthony Day na recuperação de Malcolm Arnold na sua nova morada em Norfolk, que o compositor recuperou suficientemente os seus poderes criativos para compor a 9ª Sinfonia numa explosão inspiradora de três semanas entre Agosto e Setembro de 1986. Arnold não esqueceria a dedicação do seu companheiro, dedicando-lhe a obra.

A 9ª Sinfonia marca, de várias formas, um fim definitivo numa distinta carreira sinfónica. Embora a obra seja claramente catártica e representativa de uma tremenda renovação da energia criativa do compositor, o estilo económico e altamente rarefeito da sinfonia não agradou nem os possíveis executantes nem a sua editora. A instrumentação de orquestra completa contém página após página, compasso vazio, resultado da decisão do compositor em escrever prolongadas passagens (e por vezes, repetitivas) para um número estrito de combinação instrumentais: por exemplo, no primeiro andamento, um totla de oito páginas são dedicadas a um duo entre o primeiro oboé e as violas apenas, quebrado apenas por uma curta passagem de oboés e clarinetes sem acompanhamento. A música, no papel, aparenta ser perigosamente fina para uma orquestra profissional aceitá-la executar de modo justificado. Muito por insistência de Sir Charles Groves, um convicto apoiante e promotor da música de Arnold, a sinfonia finalmente teve a sua estreia pela Filarmónica da BBC em Manchester, a 20 de Janeiro de 1992, após conhecimento público da existência da partitura através de um documentário a celebrar o 70º aniversário de Arnold.”

© 2001 Mervyn Cooke, traduzido livremente do inglês.





Sons desta Noite: “Pause del silenzio” (1917) de Gian Francesco Malipiero [orquestra]

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Gian Francesco Malipiero adorava o silêncio. Em 1909/10 ela já teria escrito obras como “Sinfonia do Silêncio e da Morte” – preocupações pouco usuais de um compositor de 27 anos. Já na década de 30 emitia gritos de angústia – inclusive artigos de jornal – denunciando as tormentas de barulho que assolava a sua cidade de Asolo – o que os seus amigos reconheciam como um “oásis de paz”, pertencente historicamente à sua cidade nativa, Veneza. Trabalhos de construção, maquinaria pesada, sinos de igrejas desafinados e descoordenados, as gritarias quotidianas dos locais nas praças… (Pelo menos, a famosa Vespa só seria inventada depois da 2ª Grande Guerra).

Então Malipiero sentia dificuldade acrescida em compor? Pelo contrário: de todos os compositores da “Geração de 1880” italiana – aqueles nascidos por volta de 1880, incluindo Ottorino Respighi, Ildebrando Pizzetti e Alfredo Casella – Malipiero é de longe, o mais prolífico: Mais de 200 obras, incluindo 40 operas e 17 sinfonias. (Admitidamente, a sua carreira composicional prolongou-se até aos 70 e muitos anos). Ele muitas vezes dava a entender que tinha um constante fluxo de música na sua mente: lutando para capturá-lo em papel, ele deve ter visto o ruído quotidiano como um sério impedimento. Mas há algo de fascinante nos resultados. Ou “resultado”: para o conjunto de obras de Malipiero – de acordo com um amigo próximo, o conhecido escritor italiano Massimo Bontempelli – “cada peça conta, porque em conjunto elas criam uma única obra ininterrupta e vasta, um contínuo discurso musical sem repetição“.

(…) Testemunhemos o primeiro “Pause del Silenzio”, uma das grandes obras de Mailipeiro, compostas no verão de 1917. Dois anos mais tarde explicaria como era “difícil encontra o silêncio durante a guerra; e se o encontrasses, estarias aterrado de o interromper, mesmo musicalmente”. Formalmente e estilisticamente, a peça cristaliza outro dos seus objectivos musicais: a determinação de recusar o “desenvolvimento temático” austro-germânico, em favor de um ideal sinfónico que ele acreditava como arquetipicamente italiano, cujas “várias secções seguem outras de modo imprevisível, obedecendo apenas às misteriosas leis que o instinto reconhece” (1948). Na obra “Pause del Silenzio”, a única conexão temática – diz o compositor – “está na explosão inicial dos metais, que retornam sete vezes – tocadas meio-tom acima de cada vez e com pequenas variantes, com diferentes combinações de trompetes, trompas, oboés e flautas: pode ser chamado de heróico, porque uma tímida voz não ousaria quebrar o silêncio. Estas sete “expressões sinfónicas” porventura correspondem a sete estados mentais contrastantes: pastoral, algo entre um scherzo e uma dança; uma serenade; uma dança de roda tumultuosa; uma elegia fúnebre; uma fanfarra; e um disparo de ritmos violentos, mas lá está, cada ouvinte sentirá de maneiras diferentes.” Tudo o que resta finalmente num eco final, é a oitava trombeta.”

©David Gallagher (NAXOS, 2011), traduzido livremente do inglês.

Sons desta Noite: “Louange à l’Eternité de Jésus” de Clytus Gottwald (do “Quatuor pour la fin du temps” de Messiaen) [transcrição coral]

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Transcrição coral a 19 de vozes da autoria de Clytus Gottwald, do 5º andamento do “Quarteto para o Fim dos Tempos” de Olivier Messiaen. Uma apropriação arrepiante.

Sons desta Noite: Sinfonia em Sib Maior op.20 de Ernest Chausson [orquestra]

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(…) “Chausson foi persuadido pelo seu cunhado, o artista Henry Lerolle a começar a escrever uma sinfonia: era o derradeiro desafio para um compositor que partilhava os ideais de “música pura” de [César] Franck, e o pobre Chausson, angustiou a cada compasso escrito. “Passo recorrentemente e rapidamente por estádios de raiva, felicidade, entusiasmo e desespero” – escreveu o compositor. Porém, concluiu o desafio, ansioso por provar a todos que era mais que um miniaturista. A Sinfonia foi completada em 1890 e o próprio compositor dirigiu a estreia, que aconteceu em Abril do ano seguinte na Société Nationale – a sociedade de musica contemporânea de Paris.

Os críticos dividiram-se. Alguns não conseguiam vislumbrar nada de novo na obra, outros aplaudiam a claridade e força de personalidade da obra de Chausson. Mas, quão original e retumbante esta sinfonia hoje se apresenta? Chausson pediu com certeza emprestado a Franck a estrutura de 3 andamentos e a ideia cíclica de temas recorrentes que vão sendo transformados ao longo da obra (embora ele não faça de modo tão rigoroso como Franck) e a Wagner, alguns elementos da linguagem harmónica. Mas o movimento geral da música, a beleza e seriedade da exploração sinfónica, de um sentimento de viagem e derradeira chegada a bom porto pertence inteiramente a Chausson.”

@Edward Blakeman (Chandos, 1999), traduzido livremente do inglês.