Sons desta Noite: “Unstuck” (2008) de Andrew Norman [orquestra]

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“Nunca estive tão preso como estive no inverno de 2008. A minha escrita composicional chegou a um completo hiato em Janeiro e durante bastante tempo esta peça penou na minha mesa, uma confusão de fragmentos musicais que se recusavam a coexistir. Foi só apenas em Maio, quando adquiri uma cópia do Slaughter-Five House de Kurt Vonnegut e lembrei-me de uma das citações mais icónicas, que tive finalmente, uma revelação. A citação é a seguinte: “Billy Pilgrim desprendeu-se a tempo” e a resposta seria que a falta de coerência nas minhas ideias deveriam ser abraçadas e exploradas, não ultrapassadas.

Apercebi-me que os materiais musicais davam-se a um arco narrativo que, como a personagem de Vonnegut, “desprendia-se com o tempo”. Bocados e peças do início, meio e fim da obra chocavam nos lugares errados, como “flashbacks” e “flashfowards” que definiram a estrutura e o estilo do “Slaughterhouse-Five”.

Também me apercebi que a palavra “unstuck” [desprendido, solto] tem resonâncias com a maneira como algumas das ideias musicais da peça são apanhadas em loops repetitivos. A orquestra, que de alguma forma dramatiza a minha frustração com a composição, gasta um tempo e energia consideráveis tentando libertar-se deste momentos de aprisionamento.”

Andrew Norman

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Sons desta Noite: “Allegro ma non troppo” de Unsuk Chin [percussão e fita]

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“Esta obra é uma peça de musique concréte cujo materiais consistem em sons de papel de seda, relógios, gotas de água e vários instrumentos de percussão que foram gravados com a ajuda do percussionista Kyungsoo Kim. Estes sons sofreram uma série de grandes transformações e muito “overdubbing”. Com isto, tentei, entre outras coisas, transições com a maior suavidade possível, de uma cor para outra.

Nesta versão para percussão e fita, a parte do executante em palco e dois sons electrónicos são forgados num super-instrumento. Adicionalmente, podemos olha para a execução ao vivo como um acontecimento performativo onde o material musical da fita está a ser trazida à vida e tornada real com as acções do percussionista: o executante torna-se parte de um diálogo surreal como percussionista virtual. Nesta “cerimónia musical”, o percussionista dá uso não só a instrumentos tradicionais como a objectos quotidianos.
Allegro ma non troppo brinca com a percepção do tempo musical que se manifesta por si de diversas maneiras, incluíndo na execução em si do percussionista. A estrutura em larga escala consiste em quatro partes que são diferenciadas pelo timbre e ao mesmo tempo, num grande arco.”
– Unsuk Chin –

Sons desta Noite: “Anubis et Nout” de Gérard Grisey [Clarinete Baixo]

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“Gérard Grisey escreveu “Anubis et Nout” para o clarinetista baixo Harry Sparnaay in 1983. A obra é dedicada em memória a Claude Vivier, um compositor canadiano e amigo do compositor, que foi morto em Março desse mesmo ano. O título da obra refere-se às divindades do livro egípcio “Livro dos Mortos”. Anubis é o Deus do submundo: ele auxilia à transição entre este mundo e o outro. Nout é a deusa do céu, que engole o sol cada fim de dia e dá ao nascimento de cada manhã. De acordo com Jean-Noel Crocq, um clarinetista-baixo que trabalhou com Grisey em algumas técnicas sónicas e dedilhações para “Anubis et Nout”, a música em Anubis representa a morte violenta, e a música de Nout representa o reconforto, a morte maternal. Em 1991, Grisey adaptou “Anubis et Nout” para saxofone barítono ou baixo. Desde então, “Anubis et Nout” tem ganho reconhecimento e é uma valiosa adição ao repertório tanto de clarinete como de saxofone.

(…)

Em “Anubis”, Grisey dá uso à subharmonicidade. (…) Harmonicidade/Inarmocinidade é um paradigma da música espectral. É definida como a representação de uma determinada fundamental e a sua integral colecção de frequências múltiplas como “harmónicas”; outros componentes não pertencentes, são “inarmónicos”. De qualquer forma, Grisey usa nesta peça largamente material “harmónico” e subharmónico.”

(Rhonda Janette Taylo, em “Gerard Grisey’s Anubis et Nout: A Historical and Analytical Perspective”, 2005)

 

Sons desta Noite: “Nacht” de Friedrich Cerha [orquestra]

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“A lingua é um meio que, de algum tempo para cá, tem sido usado mais do que qualquer idioma em todos os géneros artísticos para comunicar, tratada como se fosse transponível à vontade, como se qualquer tentativa de tradução fosse considerada legítima, aceite, impactante. Assim a Música, via a literatura, tornou-se uma área autónoma da cena artística, com os seus próprios critérios, modas, especialistas e opinadores. O que é falado e escrito é normalmente confiado a algo mais que a sua própria experiência. (…)

Dos compositores é esperado que operem como homens de literatura. Eles são supostos escrever introduções às suas obras, ensaios de autor, dar palestras. Isto significa que com certeza existem elementos musicais na penumbra que podem ser bem apresentados usando meios linguísticos ou então – como é na maioria das vezes – são coloridos e revestidos aspectos na Música que não são necessariamente cruciais ou que emanem verdadeiramente da obra em questão. Assim, o cepticismo pode ser, de facto, apropriados quando consideramos os escritor de um compositor, na realidade, eles são considerados uma autoridade numa área, onde eles apenas são diletantes.

Eu não gosto como as pessoas tentam mistificar a arte, quando o priuncípio ideológico programático, o material e a técnica de composição tornam-se mais importantes que a obra viva, em si. Cada contemplação auto-absorvente de uma compositor contém perspectivas distorcidas, cada auto-interpretação, auto-categorização ou auto-avaliação é, de uma maneira ou de outra, errada. Eu sou alguém que, de vez em quando componho Música, pinto uns quadros e esculpo em pedra. Isso não significa que a minha consciência crítica foi perdida, e não significa que não existe um desejo expressivo pessoal, nenhum forte desejo de expressar-me por trás da minha obra, aqueles que conhecem a minha obra, sabem que há. A Auto-análise é benéfica, mas as tentativas interpretativas devem ser deixadas aos receptores – e os comentadores são capazes dos seus próprios julgamentos.

Quando eu escrevo sobre a minha obra, é mais para caracterizar a peça para os ouvintes de maneira cautelosa. Sobre esta obra em particular: eu gosto de trabalhar à noite, às vezes até o sol nascer. Durante a noite, eu imagino que o tempo me pertence, durante o dia, eu pertenço ao tempo. Uma e outra vez, o tempo passa mais devagar à noite – Às vezes até consigo pará-lo. E enquanto os sons do mundo passam despercebidos durante o dia, no silêncio da noite, a atenção é aguçada até aos sons mais subtis, por vezes no roçar das folhas, um tronco a ranger, o canto cansado de um pássaro ou um automóvel ao longe.

“Et violá”,  a grandeza do céu nocturno: adoro observar as estrelas cadentes em Agosto: pequenos tiros de luz incrivelmente rápidos na imobilidade do negro. A minha imaginação atinge estes eventos com grande poder: uma miríade de estrelas cadentes caem em densos trilhos dos céus, formando rapidamente cortinas. E estas “cortinas” articulam a minha peça, elas aparecem ali e acolá, elas tornam-se lentas, pesadas, chegando menos mensod e cima, cada vez com menos luminosidade – e no meioé isto que se torna som para mim, nas horas nocturnas.”

Friedrich Cerha

Sons desta Noite: “Okanagon” de Giacinto Scelsi [Harpa, Ta-Tam e Contrabaixo]

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“Giacinto Scelsi apenas recebeu reconhecimento internacional nos últimos anos de vida, antes de falecer em 1988, quando se tornou na estrela do circuito da nova música europeia pelas gerações de compositores que o reconheciam como figura distintiva e que partilhava muitas das preocupações destes. Scelsi começou a sua carreira de compositor numa postura neo-clássica, atravessando o serialismo, contudo, numa mudança radical a meados dos anos 50, ele definiu um mundo por si só, onde o ritmo, forma e alturas seriam reconstruídos nos seus princípios básicos. (…) “Okanagon” conjuga esta reconstrução de maneira mais profunda com os timbres da harpa, contrabaixo e tam-tam, e cria um mundo de ritual primitivo. (…)

Andrew Clements