Sons desta Noite: “Konx-Om-Pax” (1969) de Giacinto Scelsi [orquestra, orgão e coro]

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“Konx-Om-Pax” é, provavelmente, umas das composições mais eficazes de Scelsi, usando material relativamente simples, projectado numa enorme tela sonora. Está escrita para grande orquestra (sem flautas), juntamente com orgão e no último andamento, um coro misto. Foi estreada a 5 de Fevereiro de 1986 para Orquestra da Hessian Radio em Frankfurt e dirigida por Jorg Wyttenbach.

O título da peça são três palavras que significam “Paz” em assírio antigo, sânscrito e latim. Tem como subtítulo: “Três aspectos do Som: como primeiro movimento do inamovível; como força criativa; como sílaba sagrada “Om”. “Konx-Om-Pax” é especialmente eficaz em criar uma sensação de paz, e tal sensação é útil para lidar com o mundo de hoje.

O primeiro andamento é baseado inteiramente na nota Dó, tratada primeiramente como uma pedal interior, que ventila primeiramente de modo harmónico e simétrico e depois assimetricamente, com a adição de quartos de tom, crescendo a um clímax altamente elaborado sobre a nota Dó. (…) O curto segundo andamento começa em Fá, lentamente adensando-se a uma grande explosão de força, sob forma de rápidas escalas cromáticas, que engolem tufo pelo seu caminho, finalizando novamente, na nota Fá. O terceiro andamento está na nota Lá (…) e marca a entrada do coro misto, cantando a sílaba “Om”. Este andamento dá a impressão (absurdo, como possa soar) de “music-process” ou até uma fuga sob um tema de uma nota só, “Om”. Isto é conseguido través de um cromatismo interior com variações microtonais, com uma ponderação cuidada do comprimento da sílaba e respectiva inflexão, e a construção de um contra-sujeito a partir de ressonâncias harmónicas. As entradas de “Om” continuam sustentadamente ao longo do andamento lento.(…)

De muitas formas, “Konx-Om-Pax” é a criação mais perfeita de Scelsi: testa o seu supremo sentido e poder e harmonia e acima de tudo, da sua eficácia. Para muitas obras de Scelsi, é necessária uma contextualização mental de modo a aproximar-nos delas, mas aqui o contexto mental é estabelecido dentro dos 20 minutos da própria obra. Enquanto que outras peças poderão ser ineficazes, “Konx-Om-Pax” nunca é o caso.

Todd McComb (ClassicalNet)

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Sons desta Noite: Seis Estudos para Quarteto de Cordas e Peças para Piano de Theodor Adorno

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“(…) Adorno encontrava problemas nas suas tentativas de Composição. Os esforços tomados para quebrar os limites impostos pelo seu professor Bernhard Sekles deixou-o gradualmente insatisfeito, encontrando-se por fim perante dificuldade que ele sozinho, nos as conseguia ultrapassar. Mesmo assim, ele já teria um número de peças em seu crédito, nomeadamente quartetos de cordas, trio de cordas e peças para piano. Até um certo ponto, apesar da sua juventude, ele tinha conhecimento da prática composicional do seu tempo e escreveu a [Alban] Berg de modo a obter permissão para ser seu pupilo (…).”

Stefan Muller-Doohm, in “Adorno: a Biography” (Wiley Publishers)

Sons desta Noite: “Robert le Diable” de Giacomo Meyerbeer [ópera]

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“Robert  le Diable” é uma ópera de Giacomo Meyerbeer, muitas vezes vista como a afirmação definitiva do desenvolvimento romântico da grand-ópera francesa novecentista, afastando-se da tragédie-lyrique de Lully, Rameau, Gluck e Spontini. O libreto foi escrito por Eugéne Scribe e Germain Delavigne, baseado na lenda medieval “Roberto, o Diabo”. A ópera estreou-se a 21 de Novembro de 1831 no Paris Ópera, catapultando Meyerbeer para a fama internacional.

Originalmente planeada como uma ópera comique de 3 actos, o compositor persuadiu Scribe a desenvolvê-la para o formato de grand-ópera em 5 actos. Tal resultou num libreto apenas baseado na personagem e suas idiossincrasias como nas características genéricas da época medieval. A música dramática, harmonia e orquestração de Meyerbeer, o enredo melodramático e efeitos de palco arrebatadores (especialmente o 3º acto, com a Danças das Freiras) tornou esta ópera numa sensação da noite para o dia, tornando Meyerbeer num dos principais compositores operáticos do seu tempo.

Chopin, que assistiu à estreia escreveu:

“Se magnificência foi alguma vez apresentada em palco, duvido que tenha chegado perto do esplendor demonstrado em Robert…é uma obra-prima… Meyerbeer fez-se imortal”.

(…) A história fascinante, com um surpreendente e complexo simbolismo e imagética que toca nas mais profundas intuições da experiência humana (muito devido à propensão do ser humano a histórias fantásticas) exerce um inconsciente arquétipo apelo .

A linguagem musical, ricamente melódica e teatricalmente poderosa, olha para trás para Rossini e à tradição do bel canto italiano, forgando ao mesmo tempo, uma inovadora urgência dramática. (…)

Robert Ignallius Letellier, na introdução do livro “Meyerbeer’s Robert le Diable: The Premier Opéra Romantique”.

Sons desta Noite: “Chroniques de la Lumiére de Francis Dhomont [electrónica]

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Estas “Crónicas” são a versão sónica impressionista de elementos visuais – um acto indubitavelmente metafórico – um sonho pessoal de luz baseado no conceito do artista visual de Montréal, Luc Courchenes.

Com transposições sonoras de fenómenos luminosos, raios naturais ou de múltiplos artefactos, “Chroniques de la Lumiére” compreende 3 andamentos: “Miroitements” (Brilhos), Artifices (Artifícios) e “Météores” (Meteoros) ou, se preferirem: Adagio, Allegro, Presto Finale.

“Miroitements” é uma música lenta e contemplativa. Traz-me à memória o nascer-do-sol ou  pôr-do-sol, luzes do norte, progressivamente movendo-se da sombra para as nuvens e suaves mudanças da luz reflectida na água. (…)

“Artifices” relata a luz feita pelo homem, desde o fogo primitivo até ao mais sofisticado laser. Procede a uma mudança progressiva do som branco e desordem (entropia) até À onda sinusoidal, ao som de altura definida.

“Météores” prossegue uma progressiva avalanche de elementos, por acumulação lenta, um incremento de densidade e um reforço da sensação de velocidade e energia cinética.

Francis Dhomont

Sons desta Noite: “Berceuse” de Arturo Toscanini [piano]

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“Nos seus últimos anos, Arturo Toscanini sempre afirmava que a razão pela qual dedicou a sua vida à Direcção de Música de outros era ele não possuir nenhum talento para composição. Como prova disso mesmo, citava frequentemente o seu “Berceuse” para Piano e apontava as suas falhas estruturais. No entanto, embora estivesse correcto nas inerentes fraquezas da peça, a peça não é de todo, uma má peça, simplesmente não uma genial, e as várias canções que escreveu são ainda mais interessantes, mostrando uma mente musical que poderia ter desenvolvido linhas interessantes se tivesse aplicado tempo nesse investimento. (…)

A música de Toscanini, assim, não é a obra de um génio inspirado, mas está longe de ser um compositor incompetente, como ele próprio se designava. Foi um início satisfatório para um jovem que absorveu muita música à sua volta e se tornaria rapidamente, num dos maestros maiores e mais influentes de todo o mundo. (…)”

Lynn René Bayley (2016), in The Art Music Lounge