Sons desta Noite: D.Sebastião, Rei de Portugal de Gaetano Donizetti [ópera]

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“Donizetti considerou “D.Sebastião, Rei de Portugal” (1843), a sua última ópera finalizada para a Ópera de Paris, como a sua obra-prima. Apesar da sua relativa obscuridade, nós devemos concordar com ele. A ópera apresenta diversos atributos que no passado se tinham provado como obstáculos à sua popularidade. O primeiro atributo será o seu comprimento – contém cinco actos consideráveis e dura cerca de 3 horas, mas tal não será oneroso para audiências habituadas a Wagner e Strauss. Para além disso, o compositor criou uma versão abreviada para o público vienense, que normalmente gostava de sair do teatro pelas 10 horas da noite. Como segundo atributo, o cenário extravagante e exigências musicais (na estreia, houve 500 pessoas em palco) retira a ópera de ser realizada fora das grandes companhias. O terceiro atributo estava na trama densa e final infeliz, que para além das várias tragédias pessoais ao longo da narrativa, a ópera acaba com uma tragédia nacional – no Finale, Portugal é perdido para Espanha, cujos barcos se aproximam no horizonte, enquanto as cortinas do palco baixam. A música de Donizetti é apropriadamente sombria, e por vezes, arrepiante. Para o público moderno, cujas sensibilidades podem acomodar um Wozzeck ou uma Elektra, a tristeza e brutalidade de D.Sebastião não será um impedimento à sua viabilidade.

Baseado numa versão romantizada da vida do história D.Sebastião de Portugal (1554-1578), a ópera menoriza a falta de habilidade política e militar do jovem rei e foca-se na sua altruísta devoção a Zayda, uma recém convertida moura ao Cristianismo, e nas sucessivas tentativas de a resgatar do seu marido Abayaldos, um chefe do Norte de África; na Inquisição; nos infiéis conselheiros do rei e na eminente ameaça da conquista espanhola. Desnecessário será dizer que a sua história acaba em tragédia e no fim, Espanha e a Inquisição saem triunfantes.

D.Sebastião contém alguma da música mais amadurecida e inspirada de Donizetti. São várias cenas que contêm uma profundidade psicológica e continuidade musical que ombreiam as óperas de Verdi. Em vários dos seus detalhes, D.Sebastião transcende as convenções da ópera de bel canto italiano novecentista. Abre com uma marcante passagem em percussão que eventualmente é tomada por um coral em estilo renascentista pelos sopros. Quando o coral reaparece, é cantado como um requiem por um coro à capella, cujo efeito é retumbantemente comovente. O início da Acto I, com a entrada dos Inquisidores trazendo a vítima à sua execução é uma obra-prima de controlo harmónico e de orquestração, e retrata a pura maldade. O sexteto do acto IV não tem uma melodia cativante como o sexteto de “Lucia”, mas não é menos psicologicamente eficaz como é musicalmente, mais engenhoso.

Stephen Eddins

 

Sons desta Noite: “In Tempus Praesens” (Concerto para Violino) de Sofia Gubaidulina

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“(…) Antes de começar a composição de obra, Gubaidulina normalmente deixa amadurecer o primeiro impulso original por um largo tempo de espera, e concebe a sua composição no contexto da sua visão religiosa e filosófica do mundo. Isto também é verdade em “In Tempus Praesens”.

Neste caso específico, existem vários fenómenos que têm um papel particular: para começar, os números 1 e 3, que derivam da Santíssima Trindade , são de importância fulcral. “Mas este UM transporta o infinito, um mundo multi-dimensional dentro de si mesmo, e por sua vez, um número infinito de características”, a compositora explica. Assim, o grande uníssono presente entre a quarta e quinta secções da obra – para Gubaidulina, uma metáfora do presente (“tempus praesens”) – representa simultaneamente a variedade na unidade. Adicionalmente, existe o conceito de “Sophia” – derivado do nome da solista estreante [Anne-Sophie Mutter] e da própria compositora. Com isto, Gubaidulina não só deseja veicular a sabedoria divina como o poder criativo de Deus. Na forma e concepção de uma obra em 5 partes, Gubaidulina remete abertamente ao “duplo vector de Sophia”.

“É imaterial para mim se eu sou moderna ou não. O facto mais importante é a verdade inerente à minha Música”. (Sofia Gubaidulina)

©Helmut Peters, no booklet do CD da BIS Records

 

Sons desta Noite: “Iris Dévoilée” de Qijang Chen [Três cantores, instrumentos tradicionais chineses e grande orquestra]

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“Qijang Chen (…), como outros seus colegas artistas, foi vítima da chamada “Revolução Cultural Chinsa” eliminando – ironicamente – em livrar-se do passado cultural chinês, extraordinariamente rico. Chen emigrou para o Ocidente, aterrando em Paris e tornou-se no último aluno de Olivier Messiaen durante os anos 1984-1988. A influência de Messiaen é certamente sentida nas principais obras orquestras do compositor, embora, como outros compositores chineses, Chen também se debate na reconciliação da sua herança asiática e a educação musical ocidental, sem copiar efectivamente Messiaen ou cair na emboscada do orientalismo barato.

A sua música, sem dúvida, desenha dos dois lados da barricada, e várias peças são tentativas de síntese entre o Este e Oeste. Deste ponto de vista, a obra “Iris Dévoilée” poderá ser a mais bem sucedida, consolidando a jornada estílística de Qijang. Esta obra orquestral de larga escala inclui três solistas femininas que englobam uma cantora de ópera chinesa e três instrumentos tradicionais chineses.

Os seus nove andamentos representam as nove facetas do que os franceses chamariam do “l’éternel féminin” (eterno feminino). Adicionalmente, o libreto chinês cantado é declamado e cantado de modo tradicional pela cantora de ópera chinesa, enquanto que as sopranos “clássicas” fazem vocalizes. A peça começa de modo tranquilo e lento, a zangado e caricatural no retratar de diferentes femininos.

Esta partitura predominantemente lenta e sonhadora, também encontra momentos animados como na “Libertina” e no “Ciumenta” e claro, no estriónica “Histérica”. Esta peça, no entanto, acaba num andamento estático de enorme beleza. A música, refinadamente escrita, evoca Messiaen, com ecos de Ravel e Debussy. A cantora tradicional e instrumentos trazem a esta música um cunho verdadeiramente pessoal. “

Hubert Culot (MusicWeb)

 

Sons desta Noite: “Apollo: Atmospheres & Soundtracks de Brian Eno (1983, re-master 2019)

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No lançamento da re-masterização do mítico albúm de Brian Eno: “Apollo: Atmospheres and Soundtracks”, de 1983:

“A ideia consistia, primariamente, na tentativa de criação de música espacial fronteiriça, de algum modo. Quando convidaram-me para fazer música para o filme [“For All Mankind” de Al Reinart], descobri que os astronautas tinham permissão de transportar uma cassete com eles para as missões, e quase todos eles levavam música e canções Country. Pensei na fabulosa ideia que eles, estando no espaço, tocando esta música que realmente pertence a outra fronteira – de certo modo – pudessem ver-se como cowboys”.

Brian Eno, numa entrevista em 1998.

Sons desta Noite: “A Música, a Guerra e a Revolução (Ep.3) [documentário]

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“Este episódio embarca numa viagem em busca dos aspectos políticos da música, combinando exemplos históricos com o presente. O documentário mostra vários pontos de vista de momentos políticos da música, e conta com os testemunhos de conceituados artistas como o maestro e compositor húngaro Iván Fischer, a pianista venezuelana Gabriela Montero, o pianista e maestro Daniel Barenboim, ou a violoncelista Anita Lasker-Wallfisch, uma das últimas sobreviventes da Orquestra Feminina de Auschwitz.”