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Os quartetos de cordas finais de Beethoven (op.130 a 135) são de uma profundidade, sobriedade e impacto musicais e humanos inesquecíveis. Tal facto torna-se ainda mais acutilantes, se pensarmos que estamos perante os anos finais do compositor, onde a surdez e o estado mental já estava em estado considerável de deterioração, adido de diversos problemas de saúde, nomeadamente de estômago e do trato intestinal, que viram, por fim, vitimar Beethoven.

Estes quartetos são o testemunho de um ser humano, que apesar de não se rever em nenhuma religião como era o caso de Beethoven, vê na sua condição humana – perecível, definhadora – uma alavanca para a criação musical. este quartetos não nos contam uma história, não nos transmitem dor ou aflição, apenas celebram a vida como ela é: com altos e baixos, com momentos de impulso, de marasmo e de oração – um acto não exclusivamente religioso, mas sim reflexivo.

Este quarteto nº15 op.132 é testemunho disso mesmo. Encomendada por um príncipe russo e violoncelista amador, encomendou “três ou quatro quartetos” ao ilustre compositor, pagando boas somas de dinheiro.

Ora passado um ano da encomenda, Beethoven não tinha sequer começado. A sua saúde deambulava entre o febril e o melancólico, e os problemas de intestinos e estômago mostravam-se cada vez mais severos, tendo sido aconselhado pelo seu médico e abster-se de bebidas e encontrar descanso na vila de Baden. Foi porventura por ali, que Beethoven escreveu este massivo quarteto, com 45 minutos de extensão.

Mas a curiosidade da sua condição é revelada de maneira tumular, em poucas palavras no 3º andamento, incaracterísticamente lento: “Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart” (Canção de Agradecimento à Deidade de um convalescente, em modo Lídio).

Com Música, Beethoven tece um comovente 3ºandamento, evocando um antigo modo medieval, com secções alternadas entre o fervoroso lento e o esperançoso allegro. As evocações em fuga de um contacto além-mundano é de uma acutilância emocional feroz.