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“(…) Porquê esta obra? Sem motivo aparente, Mozart decide recuperar uma fuga composta há vários anos atrás, onde teria aplicado toda a mestria de contraponto adquirida no estudo de obras de Handel e Bach. Todavia, havia um motivo para escrever esta obra: dinheiro. O editor – e também compositor – Franz Anton Hoffmeister publicou a obra nesse mesmo ano de 1788:

“FUGA para dois violinos, viola e violoncelo, composta pelo Sr. Wofg. Amd. Mozart, mestre-capela ao serviço de sua Majestade I.R. Em Viena, na casa Hoffmeister, 45 kr”.

A obra estrutura-se em duas partes bem diferenciadas. A introdução, em Adagio, consta de 52 compassos e termina na tonalidade de Sol Menor, dominante de Dó Menor, tonalidade da Fuga, o que permite o enlace tonal de ambas. Enquanto o original manuscrito está conservado no British Museum, o Adagio introdutório está perdido, e só chegou a nós através das edições publicadas. Curiosamente, no manuscrito da Fuga, Mozart copia nas pautas superiores da obra original para dois pianos e nos inferiores realiza a transcrição para quarteto.

ADAGIO: Um ritmo de Abertura Francesa severo e majestoso, que abra o andamento. Porém, em apenas 8 compassoa de música, temos os dois motivos temáticos que articulam todo este prelúdio. Se os primeiros quatro compassos caracterizam-se pela rigidez e rigor rítmico, os quatro seguintes  – que embora comecem com ritmo similar – opõe-se frontalmente no início com uns sonantes meio-tons na dinâmica de piano, derivados de uma melodia mais cantável. Aqui está concentrada toda a introdução. A negação e a súplica. Seguidamente, uma nova frases severa, o motivo inerente expande-se, com o baixo avançando em meio-tons e o primeiro violino e viola vão-se repartindo no motivo rítmico sonante. As dissonâncias, as progressões. As súplicas. A negação. Um ritmo majestoso que todavia, nos recorda a cena do Comendador de D. Giovanni e que nos adianta o “Rex Tremendae” do Requiem. (…) A tensão aumenta, as dissonâncias rasgam o ar dolorosamente e transportam-nos ao início do Quarteto de Cordas “Dissonâncias”.  A eterna dicotomia entre a súplica e a negação nunca encontrarão um ponto de reconciliação e por isso, no final do andamento retomamos a severidade do ritmo, desta vez implacável na sua ascensão. (…) Voltamos a ter um jogo contrapontístico, a dissonância, a modulação até à tonalidade Sol Menor. É de uma beleza trágica, agravada por suspiros. De nada serve. As quatro vozes, num subtil piano, apagam-se numa última tentativa de compaixão.

FUGA: De quê? Ou de quem? E quando? Porque agora entendemos na  dureza de uma fuga escrita muito antes, um exemplo magistral de acatamento das regras antigas com um olhar no presente e no futuro. Por agora, é 1788, que a magnificência desta rigorosa explosão tenha sentido. O Sujeito da Fuga deixa de modo claro as suas intenções desde início, fazendo seu – numa viagem no tempo, claro – o ritmo severo da introdução. (…)

A este Sujeito, obviamente, segue-se a Resposta, o mesmo motivo temático mas a uma quinta superior, enquanto por debaixo mostra-se pela primeira vez o Contra-Sujeito, elemento contrastante especialmente pelo trilo, que outorga uma sensação de instabilidade, quase de terramoto.(…)

Depois da Exposição, Episódios, Reexposições, “Stretti” entre as vozes. Elementos formais de análise que quebram como folhas secas de outros tempos, debaixo dos pés. Porque a magnitude da Fuga absorve tudo, com um Sujeito que mesmo a meio do seu corpo, contém o salto interválico de Sétima: o “saltus duriusculus”, a extrema desesperança, a dor mais irreparável. A mesma características que aparece no Sujeito da Fuga do “Kyrie” do Requiem. E junto a ele, atrás, como sua consequência, o trilo do Contra-Sujeito vai destruindo a seu tempo, o que o Sujeito imprime.

Não há escapatória possível. O labirinto retorce-se sobre si mesmo. Então, temos o “stretto” final entre todas as vozes com o Sujeito da Fuga (…). Com o sujeito e semicolcheias, severidade e tumulto, angústia e nada. Nada Até ao final. Nada.

Três dias depois de completar esta obra, Theresia Constanzia Adelheide freidericke Maria Anna Mozart, com apenas seis meses e dois dias de idade, faleceria com espasmos intestinais.

José Miguel Vinuesa Navarro, in Mozart Secreto