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” (…) Mégalithes é anterior a estes desenvolvimentos [da música espectral], composta em 1969 quando Grisey tinha apenas 23 anos. A combinação do título sugestivo com a instrumentação de 15 instrumentos de sopros de metal ( 4 trompetes, 4 trombones, 6 trompas e tuba, distribuída pelo espaço de performance) não sugere tanto a criação musical mas uma edificação erecta de granito. A motivação de Grisey não foi impessoal: descreveu como uma “obra composta à memória das vítimas de Biafra”, Mégalithes relembrar das milhares de vítimas inocentes da Guerra Civil Nigeriana, que teve lugar nos últimos três anos da década de 60.

As conotações destas duas inspirações são estabelecidas logo de início, Grisey sobrepõe notas pedais em uníssono, insinuando algo largo e portento, somente para mudar abruptamente para glissandis ascendentes, antes de dividir numa densa tempestade de disparos de notas. Este assalto sonoro é por sua vez substituído enfaticamente por um episódio contrastante, com o produto de sons emanados de surdinas e bocais, tomando o lugar das notas, sons aéreos percussivos, com alguns distantes sons murmurantes.

Grisey restabelece a altura sonora com um eco da início, outro uníssono, instigando a tuba para um solo extensivo; não é exactamente uma linha melódica o que a tuba traça, mais uma sequência de pequenas simples frases, muitas delas repetidas, e executadas de maneira superficial. Tendo apenas um instrumento ou todos os 15 instrumentos em execução, é certo que todos caminham para um fim comum, fazendo-o de maneira homogénea. As mudanças hécticas não são desuniões mas mais pausas de retirada de uma relação de longa data; da mesma forma, nos momentos de retirada, todos produzem uma paisagem sonora com o mesmo tipo de diálogo performativo, combinando e imitando uns aos outros.

Superficialmente, a música aparenta ser grotesca mas é certamente evocativa de um tipo pré-estético de elementalismo implicado no título. Criado brutalmente, barroco, sólido, implacável – não é difícil encontrar paralelismo com o impacto tenebroso humano que sucumbiu na povo nigeriano – e mesmo assim, também existe beleza na música. Admitidamente, às vezes a beleza é apenas encontrada num espaço negativo, os breves momentos de silêncio que pontuam o material, e seria erróneo sugerir que Mégalithes é tudo menos uma peça séria, sóbria e solene acto de expressão. Claramente, é uma obra conflituosa, simbolizada pelo fim da obra: uma pausa prolongada seguida de um indescritível agregado harmónico que seria altamente dissonante se não fosse tocada de modo suave, com notas em queda livre, deixando de modo oblíquo um tipo de quinta perfeita. Se existe algum acorde que encapsule todas as emoções humanas, é este.”

In 5:4 website.

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