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O dia 13 de Abril de 2014 fica seriamente marcado na minha memória. Uma tarde solarenga, uma igreja românica pequenina escondida no meio de árvores e como pano de fundo, o rio Tâmega. Nesta memória reside sensações, sons e sorrisos proporcionados com altruísmo, sinceridade e beleza. Este foi um Concerto dos “Portuguese Brass” com o Coro de Pequenos Cantores de Esposende. Não foi mais um concerto. Foi “o” concerto, do qual tive a feliz honra de ser comentador.
Os “Portuguese Brass” – um decateto de metais com fortes ambições – não demonstraram apenas que são um ensemble de enormíssima competência técnica, mas demonstraram que “Brass” é sinónimo de elevação humana aos píncaros da excelência artística. Fazer um público sorrir, fechar os olhos, sentir emoção e deixar-se levar com música de Bach só demonstra o sério futuro que este ensemble tem ao seu dispor. O Coro de Pequenos Cantores de Esposende (CPCE) por seu turno, trouxe leveza e solenidade ao concerto, com uma imaculada execução a duas e três vozes. Um coro de crianças que revelou aos presentes que a qualidade e maturidade artística não é um fenómeno exclusivo de adultos prodigiosos, mas sim de quem estuda, pratica, ensina, luta e ama pela Arte da Música. O CPCE, a sua maestrina Helena Venda Lima e a Academia de Música de Esposende deste facto fizeram lei, com brio incontestável, personificado na voz dos seus pequenos anjos.
E a segunda parte do concerto… Sou suspeito, mas a “Paixão segundo São João” de Osvaldo Fernandes era algo por mim ansiado. Osvaldo Fernandes, um jovem compositor bracarense, meu colega e grande amigo de curso, teve aqui a segunda récita da sua “Paixão segundo São João”. Conjungando os “Portuguese Brass” e o CPCE, a expectativa era auspiciosa: uma obra de cariz religioso, em português e no século XXI. Que esperar? Que irei ouvir?
As nuvens de suspeição desvaneceram-se no “Introitus”. Osvaldo Fernandes, com a sua visão descomprometida e artisticamente honesta, afirmou categoricamente a imponência das suas qualidades composicionais. Com uma escrita perfeita para instrumentos de metal, pincelou os tons fortes da toda a obra: cores harmónicas agridoces, jogando com uma habilidade e subtileza geniais diversas referências tonais e atonais. Logo de seguida o CPCE, com o “Christus Factus Est”, formula uma das secções harmónicas cíclicas mais comoventes de toda a obra: um conjunto de acordes descendentes nos metais solenes, torneado por uma passagem melódica ascendente nas vozes límpidas, que elevaram os corações de todos à verdadeira história da Humanidade: a dádiva pelos e para os outros. Esta história viu-se personificada e aprofundada ao longo da obra, com uma gestão memorável de Osvaldo como de todos os intervinientes: a narração entoada do Evangelista, as secções corais de reflexão musical, de oração em sons, as poucas mas categóricas melodias da personagem de Jesus… tudo catalizou-se para uma ovação em pé e por largos minutos de uma obra que, apesar de ser contemporânea, portuguesa, e redigida por um jovem, proporcionaram a todos os presentes uma sensação de bem-estar colectivo incomensurável.
Este concerto e Osvaldo Fernandes trouxeram-me à seguinte reflexão: será que a Música e a Arte dos nossos dias está destinada ao fracasso e à extinção, como muitos auguram? Não. A Música e a Arte é feita de vida. A Música de ontem, de hoje e de amanhã é feita de pessoas ricas interiormente, que vêem no seu papel como criadores, como executantes, como professores e maestros, como mais um passo em direcção ao Parnaso. Em direcção à sublimação do ser humano.
Isto tudo numa tarde solarenga, com uma igreja românica pequenina escondida no meio de árvores e pano de fundo, o rio Tâmega.

(Como aperitivo, os Portuguese Brass com “Oblivion” de Astor Piazzolla, arranjo de Osvaldo Fernandes.)